terça-feira, 11 de março de 2014

Dia Internacional da Mulher

Nada mais coerente que uma feminista falar do Dia Internacional da Mulher na terça-feira, pois para nós, lutar pela nossa igualdade e respeito e segurança, é todo dia!
Vou deixar registrado um breve e simples discurso que preparei para a abertura de um evento que aconteceu na Universidade… Como não sou boa com as palavras faladas, eu precisei rascunhar o que iria dizer… e para não se perder esse discurso, registro-o aqui.



"Em 1977 a ONU designou o dia 08 de março como Dia Internacional da Mulher para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. No entanto, ao longo do tempo, perdeu-se significativamente o sentido original desta data, adquirindo um caráter festivo e comercial. O objetivo deste evento é resgatar o sentido original desta data, refletindo a situação do grupo mais discriminado de toda a história da humanidade: a mulher.
Segundo Rita Lee, mulher é bicho esquisito por sangrar todo mês. Na verdade ela sangra todos os dias, mais precisamente a cada 90 minutos. Poderíamos terminar este evento com um minuto de silêncio para a próxima mulher que sangrará até a morte dentro de uma hora e meia. E o mais esquisito de tudo isso é que esse sangramento também é naturalizado. Assim como a menstruação, o sangue dessas mulheres mortas é visto como inerente a elas, consequência de seus atos, naturalizado. Olhando assim, o mito de origem do 8 de março, das mulheres queimadas na fábrica, não é tão fantasioso. Além dessa violência que deixa marcas visíveis no corpo, com as quais se comprova a agressão nas delegacias, existe a violência simbólica, e desta, nem as que obedecem fielmente os dogmas machistas escapam.
Mas estamos aqui, exatamente neste auditório, para refutar uma antiga tese: nós não somos frágeis. E, diferente das pseudo homenagens que circulam neste mês, nossa força não está em estar com as unhas impecáveis após um dia de trabalho duro, nem a andar equilibrada em salto alto, nem a suportar cólicas e mudanças de humor por conta da TPM. Somos fortes porque sobrevivemos, porque apesar de termos sido a vida inteira educadas para a submissão e para o medo, temos tido a coragem de questionar essa submissão sabendo que isso pode nos custar a vida.
Gostaria de terminar minha fala agradecendo a todas as feministas da história que lutaram para que hoje eu pudesse, entre tantas coisas, estar aqui na Universidade. Mesmo que eu não defendesse a causa feminista, o mínimo que eu poderia fazer hoje, estando dentro de uma academia, era reconhecer isso.
Obrigada a todas as mulheres que lutaram antes de nós e espero que nós que estamos aqui continuemos essa luta"

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lição anti-racista não pode ser lição de moral: é lição de amor!

Ainda bem que crianças aprendem a ser racistas (e homofóbicas e misóginas) antes de aprenderem a ser hipócritas, porque só assim podemos identificar e denunciar quem tem ensinado isso a elas. Muitas pessoas se chocam ao verem crianças, até seus/suas próprios/as filhos/as com um comportamento discriminatório e se perguntam: "Como? Eu nunca ensinei isso !" 





Bem, é preciso que se esclareça que, após a abolição da escravatura, após a refutação das teorias raciais, após muito barulho de "gente chata que vê racismo em tudo" (e graças a elas) hoje não existe mais um discurso racista explícito (homofóbico e misógino ainda tem). Então, você não vai encontrar no livro didático uma imagem de uma pessoa branca bem vestida espancando um menino negro nu e amarrando-o pelo pescoço em uma praça acompanhada de um texto que diz: "negros são bandidos, perigosos e merecem morrer". Embora estejamos muito próximo desse tipo de retrocesso em outros lugares, a escola, apesar de não ter avançado muito em relação à lei 10.639/2003 e 11.645/2009, não retrocedeu a esse ponto. Mas, engana-se quem defende que, se não há discurso de ódio, se não há uma declaração mal colocada, se não há admissão por parte do racista, então não é racismo. É sim! Para o racismo sobreviver, não poderia manter a configuração do racismo da época das teorias raciais, mas é claro que ele ainda existe, ainda é passado de geração a geração, e por isso, ainda bem que crianças aprendem o racismo antes da hiprocrisia.
Se a dona de uma empresa dispensa uma candidata negra embora ela preencha todas as qualificações requeridas para o cargo que esteja pleiteando, ela certamente irá dizer para a mulher negra, com toda a classe e fineza deste mundo: "Ok, muito obrigada por querer trabalhar em nossa empresa (vai aproveitar a oportunidade para fazer marketing, claro), mas foram muitas candidatas e irei analisar cada currículo, qualquer coisa entro em contato com você. Tenha um bom dia, e boa sorte!" (e viveram felizes para sempre). Diferente de uma criança, na creche, que quando o estagiário chega perto dela e a chama para brincar, ela diz: "Você parece um macaco, eu não gosto de pessoas negras e você é negro!"*
Engana-se quem pensa também que desconstruir o racismo é tarefa fácil. Muitos pais e muitas mães enchem a boca para dizerem que seu/ sua filho/a é inteligente, é solidário/a, é isso e aquilo (corujisse, coisa normal de pai e mãe). Mas, cuidado! Aprender a ter senso hipócrita é mais fácil que aprender a apreciar a diversidade, e quando eu disse que crianças aprendem primeiro o racismo, não afirmei que elas não possam aprender a ser hipócritas também! Se você forçar a barra, o tiro pode sair pela culatra… Uma vez, uma menina que, após ter dito à sua mãe (na maior sinceridade e franqueza): "Esse menino (apontando para o menino negro e só para ele em meio a várias fotos de crianças em determinado livro) é feio", começou a ser bombardeada de discursos moralizantes e piedosos ("mas negros são bonitos, filha!!!" "mas, filha, por favor, negras são lindas…" "mas filha, por favor, a vovó que você tanto ama é negra…" "mas, filha, olha esta menina da TV é linda e ela é negra!!!"), e ela resolveu dar um ponto final, sendo franca novamente: "Mãe, tudo para você é esse negócio de negro!!! Olha, quer saber? Eu não gosto de preto!" hehehe é que ela ainda não havia aprendido sua próxima lição: hipocrisia! Hipocrisia, apesar de ser tão criticada nas redes sociais, é muito benéfica. Não fosse, não existiria hipocrisia! Sendo hipócrita você se safa de julgamentos, de exposições vexatórias, até da justiça, da cadeia! E, a menina aprendeu que, se falasse bem de negros/as ganhava elogios, deixava sua mãe feliz, então, ela começou! A alegria de sua mãe era tanta que ela mal conseguia segurar seus pulos… até que um dia ela resolveu testar a filha. Foram brincar de bonecas, e a mãe, mostrando duas bonecas, uma branca e uma negra, pergunta: "Qual é a mais bonita, filha?". A filha, então, pensa durante alguns segundos e com um sorriso (já esperando o elogio) aponta para a negra. A mãe sorri e então, para começar a brincadeira, pergunta: "Então, qual delas é você?". A menina rapidamente toma a boneca branca da mão da mãe e rapidamente começa a brincar.
Então, como ensinar a admirar (para poder respeitar e para poder se identificar como) negros/as?
Olhe a sua volta. Conte quantas pessoas negras são representadas e como são. Imagens não têm apenas valor estético, têm também valor epistêmico. Você aprende com as imagens. O que o discurso explícito escrito não pode falar, as imagens falam, e por isso, elas falam que negros/as são inúteis, que são menos capazes, que são feios/as, que são famintos/as, que são miseráveis, que são burros, que são sujos…



Se você, ao longo de sua infância (e até hoje) recebeu repetidas vezes este tipo de imagem, você criou um conceito na sua cabeça que milhares ou milhões de letrinhas não irão fazer nenhum milagre. Até que você tenha acesso a outras imagens (positivas) e conviva com elas, de modo que elas possam estar repetidas vezes sendo incorporadas por você, seu conceito não mudará.
Quando aceitamos cotistas negros/as em nosso ambiente, seja da Universidade, seja em nosso trabalho, por exemplo, estamos tendo a oportunidade de sermos ensinados/as a não ser racista. Não será uma tarefa harmoniosa. Será conflituosa, como toda aprendizagem é… se não há conflito, não há nada de novo sendo aprendido (lembram de Piaget?). Haverá resistência em aceitar, da mesma forma que um dia, resolveram colocar a ordem das letras dos teclados da máquina de escrever de forma aleatória para que digitássemos mais devagar, para que não apertássemos duas teclas ao mesmo tempo e travasse a máquina, mas se as máquinas existissem até hoje, teríamos que inventar um teclado que mudasse a posição das letras de forma sistemática… Era ruim, mas hoje, não saberíamos usar outro tipo de teclado, é tão natural que nem nos questionamos o porquê dessa ordenação…
Aprender a ser hipócrita é mais fácil, ensinar também, afinal, está tudo pronto, prontinho para usar. Como eu sempre digo: fazer bem feito dá mais trabalho. Em compensação, o resultado é surpreendente!
Vamos tentar?




 



 






















*Relato de um aluno de Pedagogia sobre o Estágio em Educação Infantil.




terça-feira, 17 de abril de 2012

Desafios de uma mãe pedagoga

Há alguns dias venho acompanhando de perto a educação da minha filha, porque agora ela estuda numa das escolas "top" do Brasil. Esclareço que estou acompanhando, não porque sou uma mãe dedicada e atenciosa, nem porque é minha obrigação como mãe... é porque se eu não acompanhar, minha filha levará "bomba"em pleno 7 aninhos. Quem é pedagog@ sabe o quanto isso é chocante, sem precisar de esclarecimentos... Contextualizando... minha filha estuda numa escola particular e tem a vantagem de ter uma mãe que ainda não trabalha e pode ajudá-la nas tarefas, além de estimulá-la comprando livros de literatura infantil e jogos educativos. Levar "bomba" não é mais privilégio daqueles/as marmanjos/as que, ignorando sua obrigação de estudante, não estudam nem fazem seus trabalhos escolares. Crianças de 7 anos também levam "bomba" se os pais e mães não podem acompanhar teti a teti suas crianças nas milhares de tarefas diárias, se os pais e mães não pagam aquele reforço extra que a própria escola oferece, se os pais não pagam aquele aulão extra também oferecido pela escola às vésperas da prova com um exercício bem parecido com o modelo da prova para garantir que a criança se sairá bem... Uma vez eu ouvi que a escola que tem cursinho pré-vestibular está assumindo que seu ensino não é bom. Da mesma forma, na primeira oportunidade, quero saber que critérios se utilizam para que uma escola seja avaliada e considerada a top... Fiquei muito frustrada, na semana da prova, ter que ir contra meus princípios de educadora que tem uma concepção de avaliação formativa, porque ao pegar as provas, minha pequna inocente, que está numa fase de descobertas em que o aprendizado é (ou deveria ser) um prazer, algo quase que instintivo... fica desapontada e triste porque não conseguiu um 10.0 apesar de ter participado (e nós tendo custeado) todas as atividades extra ($$$) escolar de reforço/apoio/estudo.
Logo que voltei do meu afastamento, ainda não habituada ao "sistema" educacional da nossa nova cidade, deixei passar alguns erros ortográficos nas tarefas porque sei que eles fazem parte do processo de aqusição da linguagem e a correção não deve ser tão enfática em todos os momentos. É interessante que a criança tenha a oportunidade de fazer sua escrita espontânea em determinados momentos. Também porque achava que a responsabilidade de corrigir erros era da professora da sala, com alguma dinâmica mais pedagógica e significativa do que simplesmente o pai ou a mãe dizer que aquela palavra está errada... Pra minha surpresa desagradável, que me fez me sentir super culpada, os dois erros foram penalizados, descontando décimos da nota do exercício. Os próximos bilhetes vieram frisando que antes de entregar o exercício, este era para ser revisado para não passar nenhum erro ortográfico. Ao pegar as provas, fiquei mordendo os lábios com as notas... 9.9 ; 9.6 ; 9.8 Até pelo fato do desenho não ter sido colorido, tudo, tudo é pontuado, contado, milimetramente avaliado, medido, quantificado. Estava me segurando pra não ser A mãe chata, A pedagoga metida, A mestranda prepotente que ACHA que sabe tudo, enfim. Santa eu não sou, claro, comecei a corrigir tudo que vinha escrito privilegiando o masculino (do aluno = do/a aluno/a) e isso minha filha já aprendeu e ela mesma já corrige nas tarefas (que continuam a vir no masculino apenas). Comecei enviar recadinhos na agenda, mas ainda com medo de ser a chata e etc. e não reclamando o fato de estar sendo ignorada, achava que pelo menos estava dando o meu recado. Porém, o "texto do mês" (um texto digitado e colado no caderno a cada bimestre) que eu havia reclamado de haver dois erros, continuou sendo trabalhado normalmente, sem sequer um esclarecimento nem para mim nem para os/as alunos/as. Insisti em querer saber se o texto seria trabalhado apesar dos erros encontrados (ou seja, não seria substituído?). A resposta, subestimante, dizia: "o texto foi escrito por uma aluna e costuma-se deixar como a criança escreveu, mas fique a vontade para escrever da forma que achar mais conveniente". Eu repliquei perguntando se na prova minha filha pdoeria escrever da forma que achasse mais conveniente também sem com isso ter décimos, milésimos de pontos descontados. Fico revoltada com a cobrança da escola e da sociedade pois quando a educação apresenta falhas, culpabiliza o pai e sobretudo a mãe (que continua a ser a única responsável pela casa, mesmo quando trabalha fora de casa, quando estuda, faz mestrado, etc). No dia que falhamos a escola cai em cima, cobra a participação da família, mas não vejo isso como participação... Parece que estou cá a obedecer tudo que eles me ditam e eu não posso de fato participar que sou ignorada? Estou me esforçando para saber em que disciplina adquirimos essa autoestima elefantíaca que nós, professores/as, não suportamos ser corrigidos/as? Conheci pouquíssimos/as educadores/as maduros/as e seguros/as que se permitem ser desafiados/as e até se sentem enobrecidos/as de terem conseguido ensinar a pensar. Sabe aquela situação na sala de aula do ensino fundamental, em que, ao ser corrigido/a por um/a aluno/a, o/a professor/a diz: "eu só estava testando vocês para saber se estavam bem acordados/as", esse tipo de profissional chega nas graduações e nas pós e a cada nível só precisam usar mais suas capacidades argumentativas para estarem sempre certos/as. Mesmo que Paulo Freire seja considerado o Pai da nossa Pedagogia, na prática poucos/as admitem aprender com o/a aluno/a (e com os pais e mães).
Bom, hoje foi só um desabafo, não de pedagoga, mas de MÃE, superprotetora sim, cri cri também, seja lá como queiram chamar...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ACORDEMOS MULHERES !


Essa imagem tem circulado recentemente no Facebook e, desde a primeira vez que a vi, me senti incomodada. Primeiro, porque, como mãe, me identifico com os três primeiros quadrinhos. Segundo, porque não vejo relação tão direta entre os três primeiros quadrinhos com o último. Terceiro, porque discordo que uma gravidez não desejada seja responsabilidade apenas da mulher (a menos que ela tenha conseguido concebê-la sozinha). Quarto, porque apenas a mulher está sendo representada nessa charge. Onde está o pai? Ele também não é responsável pela educação de sua filha? Onde está o pai e a mãe do co-responsável pela gravidez? Eles também não falharam?

O que essa charge reafirma?
1 - O velho ditado machista: "Prendam suas cabras, que meus bodes estão soltos"
2 - O velho pensamento machista: "Mulher fica se insinuando, depois reclama que é estuprada" (isso também justifica o estupro de crianças e também é culpa da mãe que acha bonitinho a filha rebolar com músicas de adultos)
3 - Que a falha na educação é sempre da mãe, nunca da escola, do Estado e nem do pai, afinal, pai foi feito para prover o sustento da casa. Se o pai não provê o sustento, se a mulher também trabalha fora... mesmo assim, ela é culpada e ponto final.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Beleza Natural?

Existe Beleza Natural? É uma discussão ampla... mas nesse post estamos falando de beleza humana.
Tenho pesquisado sobre o Racismo na Infância, analisando o universo imagético e, corroborando o pensamento de Carlos Moore (2012)

Na infância é onde o racismo começa sua mais eficaz e duradeira tarefa de demolição, pois destrói o ser humano ANTES de que este tenha tido a possibilidade de forjar a sua identidade cultural e pessoal. Socavar a autoestima de uma criança deveria ser um crime específico na legislação criminal. É matar a autoestima de um ser humano, demolí-lo, quando este ainda não pode nem defender-se.

Quando colocamos a sociedade contra a parede para discutir o seu Racismo, existe um discurso engatilhado: @s própri@s negr@s se discriminam, @s própri@s negr@s não se valorizam. Estamos, então, diante de um ciclo. Precisamos saber onde ele se inicia e estrategicamente freá-lo. E onde será que tudo isso começa? Onde @ negr@ aprende que é feio, e, antes disso, que existe o que é feio e o que é bonito?
Pare para reparar que, ao se esforçar para se lembrar de conhecimentos que você adquiriu na escola sobre África, africanos e negros, esse conhecimento estará associado a uma imagem, provavelmente a imagem da escravidão africana. Mas antes disso, antes de conhecermos a História "Oficial" (o que é História Oficial? quem puder comentar sobre, agradeço), entramos em contato com as histórias fictícias, através dos livros didáticos, paradidáticos e da literatura infantil.
"Era uma vez uma linda moça/menina/princesa ..." As descrições de sua beleza são todas físicas. Formato do corpo, cor da pele e olhos, textura e cor dos cabelos, nariz, boca, etc. Você conheceu, na sua infância, uma princesa com a pele escura como a noite, cabelos encaracolados e perfumados, lábios desenhados como uma pintura, inteligente como seus ancestrais... ?
Já sei que, se você ainda está resistente à concordar comigo, irá se esforçar e finalmente irá se lembrar que existem livros com personagens negras como protagonistas... Menina Bonita do Laço de Fita.... O Menino Marrom... e, e.... e? Mesmo não dominando estatística, posso garantir que, na escola pública brasileira, esses livros não representam nem 20% (to chutando pra mais).
Não é contraditório que, numa sociedade que se diz tão orgulhosa de sua realidade miscigenada, os nossos livros afirmem um conceito de beleza tão uniétnico e unicultural?
Não me esqueço de uma história que ouvi numa banca que contava que, após ler a história do patinho feio para crianças da educação infantil, a professora perguntou para a turma: "O que é o belo?" . Uma criança respondeu: "O belo não existe, existe o diferente"

MOORE, Carlos. Excelente tópico de pesquisa. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <60.carlos@gmail.com> em 4 jan 2012

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Cabelo Afro

A escravidão negra não foi a única da humanidade. Em vários contextos, as sociedades tiveram seus escravos. Na maioria dos sistemas de escravidão, o ritual de identificação dos escravos era o de raspar as cabeças como sinal de perda de força, virilidade, feminilidade, poder. Entre os escravos negros da América não se raspavam as cabeças porque sendo o cabelo o principal marcador da negritude, ele simbolizava a escravidão e diferenciava quem era escravo de quem era livre mais do que a cor da pele. (fonte: Blog Liberal Libertário Libertino - negritude e estética e escravidão)
Mas, porém, entretanto...
Atualmente, os cabelos lisos perderam seu império. A ordem dos cabelos mudou. Graças !!!! Eu, finalmente, tô na moda !!!
Eu pensei em dizer que desde que comecei a estudar as relações etnicorraciais me sentia "pressionada" pelos militantes negr@s a "assumir" os cabelos "naturais". Mas acho pertinente ressaltar que, antes de me sentir "pressionada" pelos militantes, foi por me sentir "pressionada" também que eu havia aderido a vários tipos de alisamento que existiram (relaxamento, amaciamento, progressiva, inteligente, marroquina, japonesa, americana..... e por aí vai).
Quem quiser atirar a primeira pedra, fique a vontade... mas ter cabelos crespos quando a ordem é o liso não é nada fácil... e como diz o ditado popular: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Nos Estudos Culturais diríamos de um jeitinho mais acadêmico, ou seja, mais ou menos assim: quanto mais repetida uma mensagem for, mais ela será eficazmente introjetada pelas pessoas.
A mensagem de que nosso cabelo é "ruim" e feio nos chega não apenas através da linguagem verbal...
Outro dia estava num salão de cabeleireiro lendo uma revista e quase chorei com a entrevista do inventor da Deva Curl (que é brasileiro... mas to sem muita info agora...) porque ele dizia justamente sobre o constrangimento que era para a mulher brasileira ir a um salão e ouvir apenas comentários depreciativos sobre seus cabelos afro. A única solução que o profissional dava era o alisamento, seja ele total ou apenas para reduzir o volume.
Nas propagandas de cabelos, quando aparecia uma modelo negra ou de cabelos crespos era para divulgar um produto para alisar ou reduzir o volume. Geralmente a modelo estava com os cabelos de antes e depois. Na foto pré-tratamento a modelo, geralmente, estava sem maquiagem, com cabelos artificialmente armados (porque são propositalmente, penteados quando estão secos para ficarem muito volumosos) e com feição de tristes.
Já na foto pós-tratamento, as modelos estão produzidas em todos os sentidos: roupa, maquiagem, acessórios... e estão felizes, sexy... enfim.
Por que não colocavam uma foto de cabelo volumoso assim:

Porque senão a publicidade estaria apresentando uma possibilidade a mais: você também pode estar bonita com cabelos lisos. Mas a mensagem que se quer passar é de uma condição: você só pode estar bonita com cabelos lisos.
Graças a negr@s que "veem racismo em tudo" (como eu, com orgulho de assumir isso), essas publicidades estão mudando. Já vi duas propagandas de produtos de alisamento (que não lembro quais eram as marcas) que apresentam a modelo na fase pré-alisamento tão bonita e produzida quanto na fase pós.
Atualmente eu venho usando meus cabelos enrolados. Claro que a pressão e a moda me influenciaram. Aliás, a moda tem um papel importantíssimo: enfim teremos produtos específicos a disposição no mercado (não vejo a hora da Deva Curl se instaurar no Brasil !!!) Mas, desde o início eu me coloquei uma condição: eu só usarei meus cabelos enrolados quando me sentir tão bonita quanto me sinto com meus cabelos escovados... Acho que tô conseguindo !!!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Exploração Infantil... das Campanhas

De tanto que eu invejava a insonia alheia, eis-me aqui às 5 da manhã escrevendo essa postagem depois de estar com o corpo doendo de me remexer na cama e não conseguir dormir... eu até dormir, mas tive um pesadelinho e aí, enfim, comecei a pensar em coisas que ocupasse meu cérebro para não deixá-lo pensar no meu tabu: morte (o pesadelo era sobre morte) Então comecei a refletir sobre umas conversas informais que tive no facebook e resolvi escrever...
O ciberespaço tem virado palco de diversas manifestações pacíficas, a mais recente está sendo"troque a foto do seu perfil por um pesonagem que marcou sua infância até o dia 12 de outubro (dia das crianças) como manifestação contra a exploração infantil". Sempre há aqueles que criticam e isso é o bacana desse espaço e é o que eu adoro e coloco lenha na fogueira sempre que posso: gerar o debate, o embate de ideias, o conflito, a duvida, a reflexão... pq se tudo que está posto for aceito, "nada muda e tudo fica como é". E aí, resolveram cruzar a campanha contra a exploração infantil com a ocasião da morte do Steve Jobs.

Resolvi fazer uma leitura dessa situação com meus novos óculos, Sociologia da Infância (que ousadia... mas o blog é meu, dane-se rsrsrs), e fiz essa comparação:
Os livros de auto-ajuda de "pais" sobre como criar filh@s e também aquele livro que esteve por muito tempo no ranking de livros mais vendidos "Pai rico, Pai pobre" (e eu tive a curiosidade de ler e quase fui apedrejada por minha turma de Pedagogia) não condenam o trabalho infantil. É visto com bons olhos incentivar a criança, aliás, iniciá-la, ensiná-la a ter responsabilidade, a lidar com dinheiro, a planejar, economizar, calcular... enfim, é uma lista enorme de aprendizagens. Nós, pais e mães, aceitamos que mesada é importante e que deve ser como recompensa de alguma tarefa doméstica. E, achamos natural que, a mesada deva aumentar a medida que noss@ filh@ cresça, e não achamos que estaremos assim explorando a ingenuidade de nossa criança menor que não tem muita noção de quantidade e valores.
Mas o nome "trabalho infantil" nos provoca repúdio. Até que ponto ou em que medida o trabalho infantil é ruim? Do ponto de vista de quem?
Meu repúdio é com o uso da infância, da criança, para causar repúdio mas que não impede que elas continuem invisíveis e sem voz na sociedade. Estamos sempre falando DA criança e nunca COM ela.
A campanha referida aqui no post é válida, claro. Principalmente por provocar isso: posicionamentos contra, a favor... Diferente de algumas trocentas que vejo circular que, na minha opinião, estão mais parecendo campanhas de auto-ajuda: "veja essa desgraça alheia e sinta-se melhor depois". Quem não se comoveu com a história do rapaz que participou do show de calouros que foi uma criança vítima da guerra? Mas, o que a TV e as postagens falam do vídeo e da história: "que exemplo de superação", "faz com que nossos problemas pareçam idiotas". A mesma coisa com as imagens de pessoas, inclusive crianças africanas (olha aí, Steve Jobs seria um herói para elas) famintas e morrendo... as mensagens são no mesmo sentido: "você reclama da comida ? pois elas não tem nada pra comer" então... agora se você deixar de desperdiçar comida, vai compensar a fome delas? E onde está a crítica a todo o processo que leva a essa situação calamitosa? Onde está a crítica à invisibilidade e vulnerabilidade das crianças nas guerras? A crítica ao apartheid, à escravidão e aos que ainda assim acham que os países não devem pagar nenhuma indenização pecuniária, quiça uma política de ação afirmativa como as cotas, para a população que sofre diretamente os efeitos da escravidão? É uma campanha vazia de crítica, uma campanha meio neoliberalista: valoriza o indivíduo que supera uma situação, tenta provocar esse sentimento de superação, de esforço individual... e simplesmente ignora todo o resto, o que realmente deveria importar: a crítica.
Mas, voltando a Steve Jobs... eu pensei: será que não estou fazendo a mesma coisa que fizeram os defensores do clássico e consagrado Monteiro Lobato quando houve a crítica de pesquisadores/as negros/as aos seus livros? Bem, Monteiro Lobato lamentou que não tivéssemos uma organização como a Klu Klux Klan no Brasil e mesmo amenizando o impacto dessa informação, contextualizando o seu tempo histórico (esse pensamento era compatível com a época e não era só Lobato que pensava assim), não podemos negar que, seus livros terão reflexos desse pensamento racista e precisam ser criticados, sim ! Como disse "Lola" (blog que sigo): "de obra canonica fechada, basta a bíblia" . Associar Lobato ao racismo não é tão forçado (imagino) quanto associar Steve Jobs ao trabalho infantil. E o tal trabalho infantil é aceito pelo Estatudo da Criança e do Adolescente. Há, porém, restrições, recomendações, limitações, condições... assim como a CLT.

Bem.... se eu lembrar de mais alguma colocação, escrevo mais tarde...