segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Exploração Infantil... das Campanhas

De tanto que eu invejava a insonia alheia, eis-me aqui às 5 da manhã escrevendo essa postagem depois de estar com o corpo doendo de me remexer na cama e não conseguir dormir... eu até dormir, mas tive um pesadelinho e aí, enfim, comecei a pensar em coisas que ocupasse meu cérebro para não deixá-lo pensar no meu tabu: morte (o pesadelo era sobre morte) Então comecei a refletir sobre umas conversas informais que tive no facebook e resolvi escrever...
O ciberespaço tem virado palco de diversas manifestações pacíficas, a mais recente está sendo"troque a foto do seu perfil por um pesonagem que marcou sua infância até o dia 12 de outubro (dia das crianças) como manifestação contra a exploração infantil". Sempre há aqueles que criticam e isso é o bacana desse espaço e é o que eu adoro e coloco lenha na fogueira sempre que posso: gerar o debate, o embate de ideias, o conflito, a duvida, a reflexão... pq se tudo que está posto for aceito, "nada muda e tudo fica como é". E aí, resolveram cruzar a campanha contra a exploração infantil com a ocasião da morte do Steve Jobs.

Resolvi fazer uma leitura dessa situação com meus novos óculos, Sociologia da Infância (que ousadia... mas o blog é meu, dane-se rsrsrs), e fiz essa comparação:
Os livros de auto-ajuda de "pais" sobre como criar filh@s e também aquele livro que esteve por muito tempo no ranking de livros mais vendidos "Pai rico, Pai pobre" (e eu tive a curiosidade de ler e quase fui apedrejada por minha turma de Pedagogia) não condenam o trabalho infantil. É visto com bons olhos incentivar a criança, aliás, iniciá-la, ensiná-la a ter responsabilidade, a lidar com dinheiro, a planejar, economizar, calcular... enfim, é uma lista enorme de aprendizagens. Nós, pais e mães, aceitamos que mesada é importante e que deve ser como recompensa de alguma tarefa doméstica. E, achamos natural que, a mesada deva aumentar a medida que noss@ filh@ cresça, e não achamos que estaremos assim explorando a ingenuidade de nossa criança menor que não tem muita noção de quantidade e valores.
Mas o nome "trabalho infantil" nos provoca repúdio. Até que ponto ou em que medida o trabalho infantil é ruim? Do ponto de vista de quem?
Meu repúdio é com o uso da infância, da criança, para causar repúdio mas que não impede que elas continuem invisíveis e sem voz na sociedade. Estamos sempre falando DA criança e nunca COM ela.
A campanha referida aqui no post é válida, claro. Principalmente por provocar isso: posicionamentos contra, a favor... Diferente de algumas trocentas que vejo circular que, na minha opinião, estão mais parecendo campanhas de auto-ajuda: "veja essa desgraça alheia e sinta-se melhor depois". Quem não se comoveu com a história do rapaz que participou do show de calouros que foi uma criança vítima da guerra? Mas, o que a TV e as postagens falam do vídeo e da história: "que exemplo de superação", "faz com que nossos problemas pareçam idiotas". A mesma coisa com as imagens de pessoas, inclusive crianças africanas (olha aí, Steve Jobs seria um herói para elas) famintas e morrendo... as mensagens são no mesmo sentido: "você reclama da comida ? pois elas não tem nada pra comer" então... agora se você deixar de desperdiçar comida, vai compensar a fome delas? E onde está a crítica a todo o processo que leva a essa situação calamitosa? Onde está a crítica à invisibilidade e vulnerabilidade das crianças nas guerras? A crítica ao apartheid, à escravidão e aos que ainda assim acham que os países não devem pagar nenhuma indenização pecuniária, quiça uma política de ação afirmativa como as cotas, para a população que sofre diretamente os efeitos da escravidão? É uma campanha vazia de crítica, uma campanha meio neoliberalista: valoriza o indivíduo que supera uma situação, tenta provocar esse sentimento de superação, de esforço individual... e simplesmente ignora todo o resto, o que realmente deveria importar: a crítica.
Mas, voltando a Steve Jobs... eu pensei: será que não estou fazendo a mesma coisa que fizeram os defensores do clássico e consagrado Monteiro Lobato quando houve a crítica de pesquisadores/as negros/as aos seus livros? Bem, Monteiro Lobato lamentou que não tivéssemos uma organização como a Klu Klux Klan no Brasil e mesmo amenizando o impacto dessa informação, contextualizando o seu tempo histórico (esse pensamento era compatível com a época e não era só Lobato que pensava assim), não podemos negar que, seus livros terão reflexos desse pensamento racista e precisam ser criticados, sim ! Como disse "Lola" (blog que sigo): "de obra canonica fechada, basta a bíblia" . Associar Lobato ao racismo não é tão forçado (imagino) quanto associar Steve Jobs ao trabalho infantil. E o tal trabalho infantil é aceito pelo Estatudo da Criança e do Adolescente. Há, porém, restrições, recomendações, limitações, condições... assim como a CLT.

Bem.... se eu lembrar de mais alguma colocação, escrevo mais tarde...