Há alguns dias venho acompanhando de perto a educação da minha filha, porque agora ela estuda numa das escolas "top" do Brasil. Esclareço que estou acompanhando, não porque sou uma mãe dedicada e atenciosa, nem porque é minha obrigação como mãe... é porque se eu não acompanhar, minha filha levará "bomba"em pleno 7 aninhos. Quem é pedagog@ sabe o quanto isso é chocante, sem precisar de esclarecimentos... Contextualizando... minha filha estuda numa escola particular e tem a vantagem de ter uma mãe que ainda não trabalha e pode ajudá-la nas tarefas, além de estimulá-la comprando livros de literatura infantil e jogos educativos. Levar "bomba" não é mais privilégio daqueles/as marmanjos/as que, ignorando sua obrigação de estudante, não estudam nem fazem seus trabalhos escolares. Crianças de 7 anos também levam "bomba" se os pais e mães não podem acompanhar teti a teti suas crianças nas milhares de tarefas diárias, se os pais e mães não pagam aquele reforço extra que a própria escola oferece, se os pais não pagam aquele aulão extra também oferecido pela escola às vésperas da prova com um exercício bem parecido com o modelo da prova para garantir que a criança se sairá bem... Uma vez eu ouvi que a escola que tem cursinho pré-vestibular está assumindo que seu ensino não é bom. Da mesma forma, na primeira oportunidade, quero saber que critérios se utilizam para que uma escola seja avaliada e considerada a top... Fiquei muito frustrada, na semana da prova, ter que ir contra meus princípios de educadora que tem uma concepção de avaliação formativa, porque ao pegar as provas, minha pequna inocente, que está numa fase de descobertas em que o aprendizado é (ou deveria ser) um prazer, algo quase que instintivo... fica desapontada e triste porque não conseguiu um 10.0 apesar de ter participado (e nós tendo custeado) todas as atividades extra ($$$) escolar de reforço/apoio/estudo.
Logo que voltei do meu afastamento, ainda não habituada ao "sistema" educacional da nossa nova cidade, deixei passar alguns erros ortográficos nas tarefas porque sei que eles fazem parte do processo de aqusição da linguagem e a correção não deve ser tão enfática em todos os momentos. É interessante que a criança tenha a oportunidade de fazer sua escrita espontânea em determinados momentos. Também porque achava que a responsabilidade de corrigir erros era da professora da sala, com alguma dinâmica mais pedagógica e significativa do que simplesmente o pai ou a mãe dizer que aquela palavra está errada... Pra minha surpresa desagradável, que me fez me sentir super culpada, os dois erros foram penalizados, descontando décimos da nota do exercício. Os próximos bilhetes vieram frisando que antes de entregar o exercício, este era para ser revisado para não passar nenhum erro ortográfico. Ao pegar as provas, fiquei mordendo os lábios com as notas... 9.9 ; 9.6 ; 9.8 Até pelo fato do desenho não ter sido colorido, tudo, tudo é pontuado, contado, milimetramente avaliado, medido, quantificado. Estava me segurando pra não ser A mãe chata, A pedagoga metida, A mestranda prepotente que ACHA que sabe tudo, enfim. Santa eu não sou, claro, comecei a corrigir tudo que vinha escrito privilegiando o masculino (do aluno = do/a aluno/a) e isso minha filha já aprendeu e ela mesma já corrige nas tarefas (que continuam a vir no masculino apenas). Comecei enviar recadinhos na agenda, mas ainda com medo de ser a chata e etc. e não reclamando o fato de estar sendo ignorada, achava que pelo menos estava dando o meu recado. Porém, o "texto do mês" (um texto digitado e colado no caderno a cada bimestre) que eu havia reclamado de haver dois erros, continuou sendo trabalhado normalmente, sem sequer um esclarecimento nem para mim nem para os/as alunos/as. Insisti em querer saber se o texto seria trabalhado apesar dos erros encontrados (ou seja, não seria substituído?). A resposta, subestimante, dizia: "o texto foi escrito por uma aluna e costuma-se deixar como a criança escreveu, mas fique a vontade para escrever da forma que achar mais conveniente". Eu repliquei perguntando se na prova minha filha pdoeria escrever da forma que achasse mais conveniente também sem com isso ter décimos, milésimos de pontos descontados. Fico revoltada com a cobrança da escola e da sociedade pois quando a educação apresenta falhas, culpabiliza o pai e sobretudo a mãe (que continua a ser a única responsável pela casa, mesmo quando trabalha fora de casa, quando estuda, faz mestrado, etc). No dia que falhamos a escola cai em cima, cobra a participação da família, mas não vejo isso como participação... Parece que estou cá a obedecer tudo que eles me ditam e eu não posso de fato participar que sou ignorada? Estou me esforçando para saber em que disciplina adquirimos essa autoestima elefantíaca que nós, professores/as, não suportamos ser corrigidos/as? Conheci pouquíssimos/as educadores/as maduros/as e seguros/as que se permitem ser desafiados/as e até se sentem enobrecidos/as de terem conseguido ensinar a pensar. Sabe aquela situação na sala de aula do ensino fundamental, em que, ao ser corrigido/a por um/a aluno/a, o/a professor/a diz: "eu só estava testando vocês para saber se estavam bem acordados/as", esse tipo de profissional chega nas graduações e nas pós e a cada nível só precisam usar mais suas capacidades argumentativas para estarem sempre certos/as. Mesmo que Paulo Freire seja considerado o Pai da nossa Pedagogia, na prática poucos/as admitem aprender com o/a aluno/a (e com os pais e mães).
Bom, hoje foi só um desabafo, não de pedagoga, mas de MÃE, superprotetora sim, cri cri também, seja lá como queiram chamar...