terça-feira, 11 de março de 2014

Dia Internacional da Mulher

Nada mais coerente que uma feminista falar do Dia Internacional da Mulher na terça-feira, pois para nós, lutar pela nossa igualdade e respeito e segurança, é todo dia!
Vou deixar registrado um breve e simples discurso que preparei para a abertura de um evento que aconteceu na Universidade… Como não sou boa com as palavras faladas, eu precisei rascunhar o que iria dizer… e para não se perder esse discurso, registro-o aqui.



"Em 1977 a ONU designou o dia 08 de março como Dia Internacional da Mulher para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. No entanto, ao longo do tempo, perdeu-se significativamente o sentido original desta data, adquirindo um caráter festivo e comercial. O objetivo deste evento é resgatar o sentido original desta data, refletindo a situação do grupo mais discriminado de toda a história da humanidade: a mulher.
Segundo Rita Lee, mulher é bicho esquisito por sangrar todo mês. Na verdade ela sangra todos os dias, mais precisamente a cada 90 minutos. Poderíamos terminar este evento com um minuto de silêncio para a próxima mulher que sangrará até a morte dentro de uma hora e meia. E o mais esquisito de tudo isso é que esse sangramento também é naturalizado. Assim como a menstruação, o sangue dessas mulheres mortas é visto como inerente a elas, consequência de seus atos, naturalizado. Olhando assim, o mito de origem do 8 de março, das mulheres queimadas na fábrica, não é tão fantasioso. Além dessa violência que deixa marcas visíveis no corpo, com as quais se comprova a agressão nas delegacias, existe a violência simbólica, e desta, nem as que obedecem fielmente os dogmas machistas escapam.
Mas estamos aqui, exatamente neste auditório, para refutar uma antiga tese: nós não somos frágeis. E, diferente das pseudo homenagens que circulam neste mês, nossa força não está em estar com as unhas impecáveis após um dia de trabalho duro, nem a andar equilibrada em salto alto, nem a suportar cólicas e mudanças de humor por conta da TPM. Somos fortes porque sobrevivemos, porque apesar de termos sido a vida inteira educadas para a submissão e para o medo, temos tido a coragem de questionar essa submissão sabendo que isso pode nos custar a vida.
Gostaria de terminar minha fala agradecendo a todas as feministas da história que lutaram para que hoje eu pudesse, entre tantas coisas, estar aqui na Universidade. Mesmo que eu não defendesse a causa feminista, o mínimo que eu poderia fazer hoje, estando dentro de uma academia, era reconhecer isso.
Obrigada a todas as mulheres que lutaram antes de nós e espero que nós que estamos aqui continuemos essa luta"

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lição anti-racista não pode ser lição de moral: é lição de amor!

Ainda bem que crianças aprendem a ser racistas (e homofóbicas e misóginas) antes de aprenderem a ser hipócritas, porque só assim podemos identificar e denunciar quem tem ensinado isso a elas. Muitas pessoas se chocam ao verem crianças, até seus/suas próprios/as filhos/as com um comportamento discriminatório e se perguntam: "Como? Eu nunca ensinei isso !" 





Bem, é preciso que se esclareça que, após a abolição da escravatura, após a refutação das teorias raciais, após muito barulho de "gente chata que vê racismo em tudo" (e graças a elas) hoje não existe mais um discurso racista explícito (homofóbico e misógino ainda tem). Então, você não vai encontrar no livro didático uma imagem de uma pessoa branca bem vestida espancando um menino negro nu e amarrando-o pelo pescoço em uma praça acompanhada de um texto que diz: "negros são bandidos, perigosos e merecem morrer". Embora estejamos muito próximo desse tipo de retrocesso em outros lugares, a escola, apesar de não ter avançado muito em relação à lei 10.639/2003 e 11.645/2009, não retrocedeu a esse ponto. Mas, engana-se quem defende que, se não há discurso de ódio, se não há uma declaração mal colocada, se não há admissão por parte do racista, então não é racismo. É sim! Para o racismo sobreviver, não poderia manter a configuração do racismo da época das teorias raciais, mas é claro que ele ainda existe, ainda é passado de geração a geração, e por isso, ainda bem que crianças aprendem o racismo antes da hiprocrisia.
Se a dona de uma empresa dispensa uma candidata negra embora ela preencha todas as qualificações requeridas para o cargo que esteja pleiteando, ela certamente irá dizer para a mulher negra, com toda a classe e fineza deste mundo: "Ok, muito obrigada por querer trabalhar em nossa empresa (vai aproveitar a oportunidade para fazer marketing, claro), mas foram muitas candidatas e irei analisar cada currículo, qualquer coisa entro em contato com você. Tenha um bom dia, e boa sorte!" (e viveram felizes para sempre). Diferente de uma criança, na creche, que quando o estagiário chega perto dela e a chama para brincar, ela diz: "Você parece um macaco, eu não gosto de pessoas negras e você é negro!"*
Engana-se quem pensa também que desconstruir o racismo é tarefa fácil. Muitos pais e muitas mães enchem a boca para dizerem que seu/ sua filho/a é inteligente, é solidário/a, é isso e aquilo (corujisse, coisa normal de pai e mãe). Mas, cuidado! Aprender a ter senso hipócrita é mais fácil que aprender a apreciar a diversidade, e quando eu disse que crianças aprendem primeiro o racismo, não afirmei que elas não possam aprender a ser hipócritas também! Se você forçar a barra, o tiro pode sair pela culatra… Uma vez, uma menina que, após ter dito à sua mãe (na maior sinceridade e franqueza): "Esse menino (apontando para o menino negro e só para ele em meio a várias fotos de crianças em determinado livro) é feio", começou a ser bombardeada de discursos moralizantes e piedosos ("mas negros são bonitos, filha!!!" "mas, filha, por favor, negras são lindas…" "mas filha, por favor, a vovó que você tanto ama é negra…" "mas, filha, olha esta menina da TV é linda e ela é negra!!!"), e ela resolveu dar um ponto final, sendo franca novamente: "Mãe, tudo para você é esse negócio de negro!!! Olha, quer saber? Eu não gosto de preto!" hehehe é que ela ainda não havia aprendido sua próxima lição: hipocrisia! Hipocrisia, apesar de ser tão criticada nas redes sociais, é muito benéfica. Não fosse, não existiria hipocrisia! Sendo hipócrita você se safa de julgamentos, de exposições vexatórias, até da justiça, da cadeia! E, a menina aprendeu que, se falasse bem de negros/as ganhava elogios, deixava sua mãe feliz, então, ela começou! A alegria de sua mãe era tanta que ela mal conseguia segurar seus pulos… até que um dia ela resolveu testar a filha. Foram brincar de bonecas, e a mãe, mostrando duas bonecas, uma branca e uma negra, pergunta: "Qual é a mais bonita, filha?". A filha, então, pensa durante alguns segundos e com um sorriso (já esperando o elogio) aponta para a negra. A mãe sorri e então, para começar a brincadeira, pergunta: "Então, qual delas é você?". A menina rapidamente toma a boneca branca da mão da mãe e rapidamente começa a brincar.
Então, como ensinar a admirar (para poder respeitar e para poder se identificar como) negros/as?
Olhe a sua volta. Conte quantas pessoas negras são representadas e como são. Imagens não têm apenas valor estético, têm também valor epistêmico. Você aprende com as imagens. O que o discurso explícito escrito não pode falar, as imagens falam, e por isso, elas falam que negros/as são inúteis, que são menos capazes, que são feios/as, que são famintos/as, que são miseráveis, que são burros, que são sujos…



Se você, ao longo de sua infância (e até hoje) recebeu repetidas vezes este tipo de imagem, você criou um conceito na sua cabeça que milhares ou milhões de letrinhas não irão fazer nenhum milagre. Até que você tenha acesso a outras imagens (positivas) e conviva com elas, de modo que elas possam estar repetidas vezes sendo incorporadas por você, seu conceito não mudará.
Quando aceitamos cotistas negros/as em nosso ambiente, seja da Universidade, seja em nosso trabalho, por exemplo, estamos tendo a oportunidade de sermos ensinados/as a não ser racista. Não será uma tarefa harmoniosa. Será conflituosa, como toda aprendizagem é… se não há conflito, não há nada de novo sendo aprendido (lembram de Piaget?). Haverá resistência em aceitar, da mesma forma que um dia, resolveram colocar a ordem das letras dos teclados da máquina de escrever de forma aleatória para que digitássemos mais devagar, para que não apertássemos duas teclas ao mesmo tempo e travasse a máquina, mas se as máquinas existissem até hoje, teríamos que inventar um teclado que mudasse a posição das letras de forma sistemática… Era ruim, mas hoje, não saberíamos usar outro tipo de teclado, é tão natural que nem nos questionamos o porquê dessa ordenação…
Aprender a ser hipócrita é mais fácil, ensinar também, afinal, está tudo pronto, prontinho para usar. Como eu sempre digo: fazer bem feito dá mais trabalho. Em compensação, o resultado é surpreendente!
Vamos tentar?




 



 






















*Relato de um aluno de Pedagogia sobre o Estágio em Educação Infantil.