terça-feira, 8 de novembro de 2011

Cabelo Afro

A escravidão negra não foi a única da humanidade. Em vários contextos, as sociedades tiveram seus escravos. Na maioria dos sistemas de escravidão, o ritual de identificação dos escravos era o de raspar as cabeças como sinal de perda de força, virilidade, feminilidade, poder. Entre os escravos negros da América não se raspavam as cabeças porque sendo o cabelo o principal marcador da negritude, ele simbolizava a escravidão e diferenciava quem era escravo de quem era livre mais do que a cor da pele. (fonte: Blog Liberal Libertário Libertino - negritude e estética e escravidão)
Mas, porém, entretanto...
Atualmente, os cabelos lisos perderam seu império. A ordem dos cabelos mudou. Graças !!!! Eu, finalmente, tô na moda !!!
Eu pensei em dizer que desde que comecei a estudar as relações etnicorraciais me sentia "pressionada" pelos militantes negr@s a "assumir" os cabelos "naturais". Mas acho pertinente ressaltar que, antes de me sentir "pressionada" pelos militantes, foi por me sentir "pressionada" também que eu havia aderido a vários tipos de alisamento que existiram (relaxamento, amaciamento, progressiva, inteligente, marroquina, japonesa, americana..... e por aí vai).
Quem quiser atirar a primeira pedra, fique a vontade... mas ter cabelos crespos quando a ordem é o liso não é nada fácil... e como diz o ditado popular: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Nos Estudos Culturais diríamos de um jeitinho mais acadêmico, ou seja, mais ou menos assim: quanto mais repetida uma mensagem for, mais ela será eficazmente introjetada pelas pessoas.
A mensagem de que nosso cabelo é "ruim" e feio nos chega não apenas através da linguagem verbal...
Outro dia estava num salão de cabeleireiro lendo uma revista e quase chorei com a entrevista do inventor da Deva Curl (que é brasileiro... mas to sem muita info agora...) porque ele dizia justamente sobre o constrangimento que era para a mulher brasileira ir a um salão e ouvir apenas comentários depreciativos sobre seus cabelos afro. A única solução que o profissional dava era o alisamento, seja ele total ou apenas para reduzir o volume.
Nas propagandas de cabelos, quando aparecia uma modelo negra ou de cabelos crespos era para divulgar um produto para alisar ou reduzir o volume. Geralmente a modelo estava com os cabelos de antes e depois. Na foto pré-tratamento a modelo, geralmente, estava sem maquiagem, com cabelos artificialmente armados (porque são propositalmente, penteados quando estão secos para ficarem muito volumosos) e com feição de tristes.
Já na foto pós-tratamento, as modelos estão produzidas em todos os sentidos: roupa, maquiagem, acessórios... e estão felizes, sexy... enfim.
Por que não colocavam uma foto de cabelo volumoso assim:

Porque senão a publicidade estaria apresentando uma possibilidade a mais: você também pode estar bonita com cabelos lisos. Mas a mensagem que se quer passar é de uma condição: você só pode estar bonita com cabelos lisos.
Graças a negr@s que "veem racismo em tudo" (como eu, com orgulho de assumir isso), essas publicidades estão mudando. Já vi duas propagandas de produtos de alisamento (que não lembro quais eram as marcas) que apresentam a modelo na fase pré-alisamento tão bonita e produzida quanto na fase pós.
Atualmente eu venho usando meus cabelos enrolados. Claro que a pressão e a moda me influenciaram. Aliás, a moda tem um papel importantíssimo: enfim teremos produtos específicos a disposição no mercado (não vejo a hora da Deva Curl se instaurar no Brasil !!!) Mas, desde o início eu me coloquei uma condição: eu só usarei meus cabelos enrolados quando me sentir tão bonita quanto me sinto com meus cabelos escovados... Acho que tô conseguindo !!!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Exploração Infantil... das Campanhas

De tanto que eu invejava a insonia alheia, eis-me aqui às 5 da manhã escrevendo essa postagem depois de estar com o corpo doendo de me remexer na cama e não conseguir dormir... eu até dormir, mas tive um pesadelinho e aí, enfim, comecei a pensar em coisas que ocupasse meu cérebro para não deixá-lo pensar no meu tabu: morte (o pesadelo era sobre morte) Então comecei a refletir sobre umas conversas informais que tive no facebook e resolvi escrever...
O ciberespaço tem virado palco de diversas manifestações pacíficas, a mais recente está sendo"troque a foto do seu perfil por um pesonagem que marcou sua infância até o dia 12 de outubro (dia das crianças) como manifestação contra a exploração infantil". Sempre há aqueles que criticam e isso é o bacana desse espaço e é o que eu adoro e coloco lenha na fogueira sempre que posso: gerar o debate, o embate de ideias, o conflito, a duvida, a reflexão... pq se tudo que está posto for aceito, "nada muda e tudo fica como é". E aí, resolveram cruzar a campanha contra a exploração infantil com a ocasião da morte do Steve Jobs.

Resolvi fazer uma leitura dessa situação com meus novos óculos, Sociologia da Infância (que ousadia... mas o blog é meu, dane-se rsrsrs), e fiz essa comparação:
Os livros de auto-ajuda de "pais" sobre como criar filh@s e também aquele livro que esteve por muito tempo no ranking de livros mais vendidos "Pai rico, Pai pobre" (e eu tive a curiosidade de ler e quase fui apedrejada por minha turma de Pedagogia) não condenam o trabalho infantil. É visto com bons olhos incentivar a criança, aliás, iniciá-la, ensiná-la a ter responsabilidade, a lidar com dinheiro, a planejar, economizar, calcular... enfim, é uma lista enorme de aprendizagens. Nós, pais e mães, aceitamos que mesada é importante e que deve ser como recompensa de alguma tarefa doméstica. E, achamos natural que, a mesada deva aumentar a medida que noss@ filh@ cresça, e não achamos que estaremos assim explorando a ingenuidade de nossa criança menor que não tem muita noção de quantidade e valores.
Mas o nome "trabalho infantil" nos provoca repúdio. Até que ponto ou em que medida o trabalho infantil é ruim? Do ponto de vista de quem?
Meu repúdio é com o uso da infância, da criança, para causar repúdio mas que não impede que elas continuem invisíveis e sem voz na sociedade. Estamos sempre falando DA criança e nunca COM ela.
A campanha referida aqui no post é válida, claro. Principalmente por provocar isso: posicionamentos contra, a favor... Diferente de algumas trocentas que vejo circular que, na minha opinião, estão mais parecendo campanhas de auto-ajuda: "veja essa desgraça alheia e sinta-se melhor depois". Quem não se comoveu com a história do rapaz que participou do show de calouros que foi uma criança vítima da guerra? Mas, o que a TV e as postagens falam do vídeo e da história: "que exemplo de superação", "faz com que nossos problemas pareçam idiotas". A mesma coisa com as imagens de pessoas, inclusive crianças africanas (olha aí, Steve Jobs seria um herói para elas) famintas e morrendo... as mensagens são no mesmo sentido: "você reclama da comida ? pois elas não tem nada pra comer" então... agora se você deixar de desperdiçar comida, vai compensar a fome delas? E onde está a crítica a todo o processo que leva a essa situação calamitosa? Onde está a crítica à invisibilidade e vulnerabilidade das crianças nas guerras? A crítica ao apartheid, à escravidão e aos que ainda assim acham que os países não devem pagar nenhuma indenização pecuniária, quiça uma política de ação afirmativa como as cotas, para a população que sofre diretamente os efeitos da escravidão? É uma campanha vazia de crítica, uma campanha meio neoliberalista: valoriza o indivíduo que supera uma situação, tenta provocar esse sentimento de superação, de esforço individual... e simplesmente ignora todo o resto, o que realmente deveria importar: a crítica.
Mas, voltando a Steve Jobs... eu pensei: será que não estou fazendo a mesma coisa que fizeram os defensores do clássico e consagrado Monteiro Lobato quando houve a crítica de pesquisadores/as negros/as aos seus livros? Bem, Monteiro Lobato lamentou que não tivéssemos uma organização como a Klu Klux Klan no Brasil e mesmo amenizando o impacto dessa informação, contextualizando o seu tempo histórico (esse pensamento era compatível com a época e não era só Lobato que pensava assim), não podemos negar que, seus livros terão reflexos desse pensamento racista e precisam ser criticados, sim ! Como disse "Lola" (blog que sigo): "de obra canonica fechada, basta a bíblia" . Associar Lobato ao racismo não é tão forçado (imagino) quanto associar Steve Jobs ao trabalho infantil. E o tal trabalho infantil é aceito pelo Estatudo da Criança e do Adolescente. Há, porém, restrições, recomendações, limitações, condições... assim como a CLT.

Bem.... se eu lembrar de mais alguma colocação, escrevo mais tarde...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 de maio - Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo

O dia 13 de maio era o dia oficial de homenagear os nossos heróis brancos abolicionistas e patriotas que "salvaram" os africanos da escravidão.
O Movimento Negro reivindicou outra data para que se tornasse referência à população negra, o dia 20 de novembro, data do assassinato de Zumbi dos Palmares, um líder africano que conduziu a maior organização política que o Brasil já teve, o Quilombo dos Palmares.
E o da 13 de maio, ficou sendo um dia de Denuncia, de Protesto contra o Racismo.
Ontem ouvi numa palestra o que já venho escrevendo nos meus artigos: a abolição brasileira não foi motivada por questões humanísticas. Nenhum patriota branco se conscientizou sobre o tratamento desumano que os africanos escravizados sofriam no Brasil. A abolição foi uma atitude conservadora. Tanto que as indenizações foram para os fazendeiros donos de escravos e não aos ex-escravizados. Ontem, na mesma palestra, refletimos: por que ninguém reclama dessa indenização, que foi feita pelo Estado, e hoje, quando reivindicamos do Estado reparações, uma delas as Cotas Raciais nas Universidades Públicas, então há reclamações ?
Os africanos que chegavam ao Brasil como escravos trabalhavam nas lavouras e também nas Casas Grandes como empregados domésticos, motoristas, amas de leite... Passaram-se mais de dois séculos e na nossa sociedade moderna, que se julga não precisar de cotas porque temos uma Constiuição de Primeiro Mundo que garante que todos devem ser tratados iguais, vemos um cenário muito parecido ao período pré-abolição: quem é maioria nos subempregos no Brasil? As novelas nos dão um reflexo muito próximo da realidade: as negras são babás, empregadas domésticas, os negros os motoristas, os porteiros... Agora, a pergunta que o Movimento Negro se fez: será que os negros não estão nas Universidades porque são incapazaes ou por que se esforçam menos que os brancos pobres?
Bem, as pesquisas sobre o desempenho dos cotistas estão aí para não só calarem a boca dos que declaram que não andariam em avião pilotado por um cotista, mas também para provar que não é apenas uma questão econômica nem de educação básica que impossibilita a população negra de alcançar as oportunidades iguais que tanto se fala ao criticar as Cotas.
Se o tráfico de escravos e o comércio de escravos teve o aval do Estado, se a indenização dos ex-proprietários de escravos teve o aval do Estado, por que as pessoas não querem que o Estado se responsabilize pela reparação material e compensação histórica da população negra?
Cotas é apenas uma das políticas de reparação. É  uma questão de justiça social. Mesmo sabendo que a pobreza no Brasil tem cor, as Ações afirmativas não quer saber se com cotas o negro rico irá entrar na Universidade enquanto o branco pobre vai continuar de fora. Aliás, se existe hoje uma cota social nas universidades é graças ao Moviemnto Negro, porque antes de se discutir cotas para negros, ninguém nem cogitava uma política de inclusão para pobres nas universidades.
Quando eu comecei discutindo essa questão nos Foruns desses sites de relacionamento, o que percebi é que os maiores contrários às Cotas são motivados pelo "farinha pouca, meu pirão primeiro".

Brasil, um país racista: enquanto não admitirmos e assumirmos nosso porblema, nao poderemos lutar contra ele !

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dia das Mães - Liquidação de jogo de panelas

Depois de mais de 2 anos sem ter uma dor de cabeça, eis que uma gripe atravessa meu caminho. E, justamente numa data reflexiva da minha identidade materna. Hoje eu disse que o ofício de mãe era muito difícil e fui logo censurada "dizer isso é até pecado".
Almocei correndo e fui mais cedo levar minha pequena ao colégio, porque hoje tinha festa de aniversário e eu tinha que comprar o presente. Fui ao supermercado mais próximo, ao entrar, por um minuto eu ainda estava no meu mundinho e estranhei aquele monte de liquidação de microondas, jogo de talheres, jogo de panelas, fogão, liquidificador... Aí ainda tentei ser otimista: ah... o mercado não tem esse tipo de responsabilidade social e o que importa é vender.... e as mulheres e homens podem comprar as panelas nessa data para aproveitar a promoção, mas é claro que não vão dar panela para nenhuma mãe, impossível, essa era já passou...
Esse fato já influenciou na escolha do presente. Escolhi um presente unisex e quando estava na fila para pacote de presente, não aguentei ficar esperando as várias mulheres na minha frente com várias caixas de panela, jogo de porcelana, lixeira para cozinha... Pedi para a funcionaria um pedaço de papel de presente e eu mesma fiz o pacote de presente em 2 minutos e fui embora, fazer meu chazinho de hortelã, tomar um banho e tomar um antigripal, pois amanhã tenho aula (estágio docência), e preciso estar firme e forte.... Ai que saudade da ter mãe por perto !!!!
Quuem foi o imbecil que disse que mulher é sexo frágil ? Um dia eu consigo desconstruir essa grande mentira dentro de mim !

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Democracia Racial ?

O vídeo dispensa comentários. Dispensa os meus !!!! Espero que ninguém fique em silêncio !



segunda-feira, 2 de maio de 2011

Você faria um aborto?

A resposta está sempre na ponta da agulha para a maioria das pessoas: não ! O argumento é sempre vinculado à proteção à vida, direitos humanos, o valor da vida humana, etc.
O aborto foi tema debatido nas últimas eleições presidenciáveis. E, a oposição de Dilma, fazia aquele discurso bem previsível e que não engana mais ninguém: somos contra o aborto, pois somos a favor da vida. (hipocrisia sem tamanho se a gente calcular quantas vidas são interrompidas fruto de má administração e hostilidade do governo em muitas causas em que os movimentos sociais vem reivindicando, a exemplo os Sem Terra, Sem Teto, Movimento Negro, LGBT, etc).
Sou a favor da vida, mas enquanto o mundo me tratar diferente por ser mulher, enquanto a gravidez indesejada e não planejada causar ônus apenas para a mulher, serei a favor do aborto. É o nosso caso no momento. Homens praticam "abortos" (simbólicos) diariamente, quando somem e não assumem a paternidade. Eles reconstroem suas vidas normalmente. Mas a culpa, esta sim, é sempre colocada em cima da mulher. O aborto deixaria homens e mulheres em pé de igualdade.
Mas, a vontade de criar esse post se deu por uma breve discussão que se iniciou hoje na reunião do grupo o qual participo na Universidade, e teve de ser interrompido devido às demandas do evento do nosso grupo (II e-geincos). O debate era mais ou menos assim: mesmo que o aborto fosse legalizado, eu, se fosse médica, não faria/ mas se você é uma médica de hospital público e a lei dá o direito para a mulher fazer o aborto, então você deve fazer/ mas eu não faria porque é uma questão de consciência, eu não conseguiria/ mas se o Estado se diz Laico e você trabalha para ele, você deve separar o privado do público, mesmo você não concordando, deve fazer...

Convido vocês para continuar esse debate aqui...
É possível separar o público do privado (ou seja, a sua opinião/ seus valores, do aspecto legal estatal)?

Comentem, participem...

Há braços

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Filme que inspira: Mandela Luta pela Liberdade




Acho que esse Blog vai acabar sendo sobre filmes, e eu nem sou uma amante de cinemas e filmes assim...
Esse filme eu já assisti várias e várias vezes. Toda vez que passa na TV eu assisto e não me canso. Gosto de pessoas de fibra, de coragem e ao mesmo tempo de paz, sábias, como Mandela, personalidade retratada nesse filme. Difícil encontrar pessoas assim: dispostas a matar ou morrer por uma causa humana. Difícil não se deixar corromper pelo sistema...
O filme é ótimo, sem contar que o ator que faz Nelson Mandela é um charme...
Vale a pena assistir, vale a pena refletir !

Obs.: Na primeira postagem foi incluso o trailer do filme "O Último Rei da Escócia"

Bjs

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A vida como ela é em Bob Esponja



Acredito que muitas mulheres devem se identificar com esse episódio do Bob Esponja...
É incrível como uma ideologia opera na nossa mente, na nossa vida e etc. A gente introjeta tanto a ideologia machista que, quando temos um dia difícil, nos sentimos culpadas de reclamar o trabalho que uma filha ou um filho dá para nós, mães.
As pessoas se chocam quando alguma mulher diz que não quer ser mãe. Lá vem o velho sermão: "Nossa, cadê seu instinto materno?" Quando a mulher também deixa um(a) filho(a) para investir na carreira profissional ou acadêmica, o sermão se repete:     "Nossa, uma mãe abandonando sua(seu) filha(o)!!"
Hoje eu tava pensando cá com meus botões: identifico dois tipos de machista
1 - O tradicional: aquele que acha que a mulher não pode fazer tudo que um homem faz, com a mesma qualidade;
2 - O disfarçado: aquele que diz que a mulher pode e deve fazer tudo o que um homem faz como trabalhar, pagar as contas, resolver problemas, assumir as responsabilidades de um lar... porém, ele acha que ELE não pode fazer o que uma mulher faz, não porque acha que não tem capacidade, mas simplesmente por achar que não deva fazer porque isso é "trabalho de mulher".
Não é a toa que quando eu era criança eu queria ser homem, e um dia desses minha pequena chorou pelo mesmo desejo. Sabemos muito pouco sobre infância... acreditamos que crianças sejam indefesas e ingênuas... Sábias, muito sábias.
Eis o comentário de uma nova sábia, após ver o desenho na TV: "É muito ruim ser a mãe, né?" Será que essa pessoinha tbm vai ser julgada: "Onde está seu instinto materno ????"

terça-feira, 26 de abril de 2011

Quando as Princesas vão à luta...

No meu tempo, as princesas eram magras, tinham nariz afilado, com cabelos lisinhos e geralmente eram loiras (não, não é por isso que eu to vivendo uma fase loura... aliás, talvez sim, pq não? olha a denegação aí kkkk). Eu acho que essas histórias são tão difundidas que fazem parte do que chamamos de "imaginário coletivo". Significa dizer que a gente, inconscientemente, vai aprendendo a ser mulher a partir desses "arquétipos". A mulher é que pensa em casar, o homem se interessa por aventura, a mulher espera pelo príncipe, o homem é que deve tomar a iniciativa sempre, a mulher é a que cuida de afazeres domésticos, o homem é que provê o sustento da casa... Quando nos tornamos mães e pais, ensinamos esse "ser mulher" ou "ser homem" desde que a criança nasce: se for menina, ganha bonecas, fogãozinho, panelinhas; se for menino, bola, carrinho, ferramentas... se for menina: cruza essas pernas filha, seja doce, meiga, quieta, delicada.... se for menino: "nossa, olha como meu filho é ativo, esse vai ser um garanhão..."
Eis que alguns filmes recentes têm tentado quebrar essa lógica: A Princesa e o Sapo (a primeira princesa negra da Disney) e o último filme de Sherk.
Aliás, o Sherk já pode ser considerado uma transgressão de padrões, né?
Mas, voltando pro nosso foco, as princesas, no filme A Princesa e o Sapo, Tiana é uma moça negra que não sonha em se casar e ser feliz para sempre. Ela não tem um sonho, ela tem um plano (e trabalha duro por ele): abrir um restaurante para que pessoas de diferentes "lugares" pudessem ir (acho que esses lugares se refere aos lugares sociais). O príncipe, que iria se casar com a amiga de Tiana que desde pequena sonha com o dia em que encontrasse um príncipe para casar, se apaixona pela moça negra e decide abrir mão de seu plano de casar com a menina rica e "consertar" a falência de sua família (que só permanecera com o nome/status de realeza) e juntar-se aos planos e trabalho de Tiana.
Fiquei emocionada quando assisti ao filme, porque Tiana é uma evolução de Princesa para servir de referência às meninas.
Quanto ao Sherk... o último filme foi espetacular, foi a vingança das mulheres (kkk). O filme mostra que se Fiona não tivesse sido salva pelo tão esperado Príncipe, ou o Sherk (como aconteceu), ela não teria morrido naquela torre sozinha a chorando... Fiona se salvou sozinha do Dragão, saiu da Torre e "ganhou o mundo". Ela se tornou sem o seu "salvador", nada menos que, a mulher que liderava uma espécie de "quilombo" de ogros... Sem contar que o tipo guerreira de Fiona está muito mais sexy e legal do que a típica princesa que estamos acostumad@s.
Na verdade, a história dessas princesas não são tão fantasiosas assim. Sabemos que, na Diáspora, as mulheres negras foram extremamente relevantes no movimento de resistência à escravização. Foram mulheres que lutaram, lideraram muitas vezes essa luta... Mas infelizmente essas histórias foram silenciadas na nossa sociedade, por um motivo que eu já disse aqui: História é poder.

"Se você quiser destituir um povo, o jeito mais fácil é contar sua história, e, preferencialmente começando com 'em segundo lugar"

Sinto que essa nova geração de mulheres terá referenciais mais evoluídos para se influenciarem.

Há braços

domingo, 24 de abril de 2011

Pensando alto...

Outro dia, assistindo a uma palestra sobre "Currículo e diversidade", o professor convidado da UFBA comentou que certa vez iria receber em sua cidade um professor de fora, muito reconhecido pela sua produção, por ocasião de um evento. O professor confessou, então, que "apesar" de estar envolvido com a temática da diversidade, ficara chocado ao saber  que o tal professor de fora era homossexual assumido e iria vir com seu companheiro e mencionou que gostaria de conhecer os bares LGBT da cidade. O professor da UFBA explicou então que percebia que aquela reação dele era resultado de sua formação que não havia lhe ensinado a lidar com a diversidade sexual. Nesse momento, a professora da casa (UFPB) interrompeu o  convidado para dizer que ela não se espantaria com essa situação (a homossexualidade do professor). Isso é perfeitamente possível, mas o que me incomodou foi a justificativa da professora. Ela disse que o educador(a) não deve se chocar com a diversidade e sim aceitá-la. (Sábio ditado popular: falar é tão fácil).
A pergunta que não quer calar: qual a receita desse sucesso, professora?
Se uma pessoa afirma que, apesar de a educação posta transmitir uma ideologia hegemônica eurocêntrica, machista e homofóbica, que justifica a subalternidade de "minorias", ela não está sob influência dessa ideologia, ela não só é imune a esse poder como aconselha que todos devam ser, porque isso é o ideal: ou essa pessoa é excepcional ou está subestimando o poder da ideologia dominante.
Se a segunda opção for a resposta, é necessário continuar questionando/ se preocupando com o currículo, uma vez que é possível facilmente e por questão de escolha aceitá-lo ou rejeitá-lo?
Se a segunda resposta for a escolhida, não estaremos reproduzindo a ideologia hegemônica que diz: "os oprimidos são fracos e aceitam a condição de subalternos. Quem quiser, pode escolher não ser oprimido"?
Essa conversa me fez refletir outra questão: o contar histórias. Como é interessante o processo de seleção. Como ouvi numa banca um dia desses, "toda história é esquecimento". E é incrível como nós selecionamos apenas o melhor de nós, mesmo que seja um melhor inventado. A gente passa um tempão fazendo um trabalho em defesa de uma educação anti-racista, para que o currículo inclua temas diversos, para que os livros infantis representem as minorias de forma respeitosa e não esteriotipada... Mas aí quando te colocam na parede: mas porque vc não usa seu cabelo "natural"(uso aspas depois que assisti a uma palestra sobre o Corpo na perspectiva dos Estudos Culturais)? A gente tem mil e uma justificativas para não admitir o que seria absolutamente compreensível: você é vulnerável como todos os mortais ! E aí continuam te encurralando: mas você não defende a afirmação e valorização de sua etnia?  E aí, de repente a gente começa a desconstruir toda a justificativa da pesquisa que a gente está desenvolvendo. Mas, devo compreender que essa vergonha de ter preconceito também é fruto da nossa formação. O nosso famoso preconceito de ter preconceito.
obs. : Ano passado, num Mini-curso com Edson Cardoso (UNB), ele explicou o conceito "denegação" em psicanálise, que é quando a gente nega muito algo porque admitir seria muito doloroso.
Mas, finalizando, a seleção na construção da história é válida (a denegação acho que não). Pena que nem todos tem o poder de contar suas próprias histórias e, assim, selecionarem apenas aqueles trechos bonitos e honrosos. História, como bem disse Chimamanda Adichie, é poder.

A gente escreve politicamente correto. A gente fala politicamente correto. A gente age politicamente correto. E tudo isso é válido e necessário. Mas a gente sente.

Há braços,
Poli

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Como começar?

Hoje é um dia raro na minha vida: perdi o sono. Foi depois de um filme (O ultimo rei da Escócia). Fiquei pensativa e prefiri me distrair até chegar o sono para não correr o risco de me aprofundar nos pensamentos motivados pelo filme. Fico descrente quando vejo tanta crueldade e tantas incompreensões no mundo. Mas então, pulando esse assunto, resolvi criar esse blog. Também quero registrar que fiquei motivada para o blog ao visitar o blog de um amigo, e também por estar sempre refletindo e debatendo alguns temas por email com meus/minhas colegas de estudo.
Quero que esse espaço seja de troca de ideias, partilha de experiências, busca de aperfeiçoamento a partir de outros olhares diferentes do meu.
Como a gente sempre fala a partir do nosso lugar social, é pertinente dizer que sou da área da educação, especificamente da linha de Estudos Culturais.
Como no início do meu post eu mencionei o tal filme, não posso deixar essa curiosidade sobre o que me fez perder o sono. Na sinopse dizia apenas se tratar de um filme que envolvia um "terrível ditador" da história de Uganda: Idi Amin (bota terrível nisso). Mas foi interessante assistir o filme. Muita informação nova pra mim. Muito insight bacana que o filme oportuniza. E, tirando o lado terrível do tal ditador, até que ele era um cara engraçado (no começo do filme eu até ri).



Mas não é com Idi Amin que me choquei, mas com as histórias de crueldade do ser humano. Às vezes eu acho que é melhor nem conhecê-las.
Vou tentar dormir...
Até outro dia (espero que seja em breve)

Há braços