domingo, 24 de abril de 2011

Pensando alto...

Outro dia, assistindo a uma palestra sobre "Currículo e diversidade", o professor convidado da UFBA comentou que certa vez iria receber em sua cidade um professor de fora, muito reconhecido pela sua produção, por ocasião de um evento. O professor confessou, então, que "apesar" de estar envolvido com a temática da diversidade, ficara chocado ao saber  que o tal professor de fora era homossexual assumido e iria vir com seu companheiro e mencionou que gostaria de conhecer os bares LGBT da cidade. O professor da UFBA explicou então que percebia que aquela reação dele era resultado de sua formação que não havia lhe ensinado a lidar com a diversidade sexual. Nesse momento, a professora da casa (UFPB) interrompeu o  convidado para dizer que ela não se espantaria com essa situação (a homossexualidade do professor). Isso é perfeitamente possível, mas o que me incomodou foi a justificativa da professora. Ela disse que o educador(a) não deve se chocar com a diversidade e sim aceitá-la. (Sábio ditado popular: falar é tão fácil).
A pergunta que não quer calar: qual a receita desse sucesso, professora?
Se uma pessoa afirma que, apesar de a educação posta transmitir uma ideologia hegemônica eurocêntrica, machista e homofóbica, que justifica a subalternidade de "minorias", ela não está sob influência dessa ideologia, ela não só é imune a esse poder como aconselha que todos devam ser, porque isso é o ideal: ou essa pessoa é excepcional ou está subestimando o poder da ideologia dominante.
Se a segunda opção for a resposta, é necessário continuar questionando/ se preocupando com o currículo, uma vez que é possível facilmente e por questão de escolha aceitá-lo ou rejeitá-lo?
Se a segunda resposta for a escolhida, não estaremos reproduzindo a ideologia hegemônica que diz: "os oprimidos são fracos e aceitam a condição de subalternos. Quem quiser, pode escolher não ser oprimido"?
Essa conversa me fez refletir outra questão: o contar histórias. Como é interessante o processo de seleção. Como ouvi numa banca um dia desses, "toda história é esquecimento". E é incrível como nós selecionamos apenas o melhor de nós, mesmo que seja um melhor inventado. A gente passa um tempão fazendo um trabalho em defesa de uma educação anti-racista, para que o currículo inclua temas diversos, para que os livros infantis representem as minorias de forma respeitosa e não esteriotipada... Mas aí quando te colocam na parede: mas porque vc não usa seu cabelo "natural"(uso aspas depois que assisti a uma palestra sobre o Corpo na perspectiva dos Estudos Culturais)? A gente tem mil e uma justificativas para não admitir o que seria absolutamente compreensível: você é vulnerável como todos os mortais ! E aí continuam te encurralando: mas você não defende a afirmação e valorização de sua etnia?  E aí, de repente a gente começa a desconstruir toda a justificativa da pesquisa que a gente está desenvolvendo. Mas, devo compreender que essa vergonha de ter preconceito também é fruto da nossa formação. O nosso famoso preconceito de ter preconceito.
obs. : Ano passado, num Mini-curso com Edson Cardoso (UNB), ele explicou o conceito "denegação" em psicanálise, que é quando a gente nega muito algo porque admitir seria muito doloroso.
Mas, finalizando, a seleção na construção da história é válida (a denegação acho que não). Pena que nem todos tem o poder de contar suas próprias histórias e, assim, selecionarem apenas aqueles trechos bonitos e honrosos. História, como bem disse Chimamanda Adichie, é poder.

A gente escreve politicamente correto. A gente fala politicamente correto. A gente age politicamente correto. E tudo isso é válido e necessário. Mas a gente sente.

Há braços,
Poli

2 comentários:

  1. Oi Poli...

    Olha eu aqui de novo (risos). Eu pedi para sempre receber suas postagens, porque é muito gostoso ler o seu texto. Como diz a doutora "Essa menina escreve muito bem", tanto que faz com que a gente tenha vontade de interagir com ela, ou melhor, com o que você escreve. Falar e escrever sobre as “diferenças culturais” não é fácil, principalmente porque todas as pessoas a sua volta, por mais preconceituosos que sejam irão sempre usar o seu discurso contra você. Como uma forma de amenizar ou até mesmo justificar as suas ações. Quem que trabalha com a diversidade nunca passou por isso? Eu que sou uma mera aprendente, passo por isso frequentemente. Hoje mesmo, alguém em uma roda de conversa soltou um comentário “eu não deixo que meus(minhas) filhos(as) façam capoeira, porque isso é coisa de vagabundo e eles(as) vão acabar se envolvendo com esse tipo de gente”, logo em seguida outra pessoa se pronunciou “não diz isso porque se não você vai machucar o coração de Klebinha(eu), você não sabe que ela defende essas coisas”, e começaram a rir. Não vou colocar aqui o desenrolar da conversa até porque entraríamos em outras discussões, mas os pontos chave são: primeiro, a pessoa que opta por trabalhar com as questões de diversidade/diferenças culturais sempre irão ouvir e passar por essas situações de descaso, ironias e ridicularizações; e segundo, inconsciente ou conscientemente (pois não podemos afirmar) as pessoas marginalizam “tudo” que tem envolvimento com cultura africana, mesmo que quando questionadas a esse respeito não admitam e arquitetem desculpas para justificar as suas afirmações, pois como você bem colocou minha cara amiga “as pessoas tem vergonha de ter(admitir) preconceitos, porque é politicamente incorreto. A justificativa da professora em relação ao fato relatado pelo professor, nada mais é do que essa “vergonha”, porque venhamos e convenhamos, negar que não somos influenciados e educados em uma sociedade eurocêntrica, racista, homofóbica e machista é afirmar que vivemos em outro Planeta. A questão é a forma e intensidade que essa influência nos afeta. Mas que somos influenciados isso esta claro e posto socialmente. Acredito que um dos primeiros passos para o “fim” do preconceito é admitir que ele existe, pois só assim poderemos lutar contra ele.

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  2. Amiga, não é a toa que a "doutora" vive falando que no nosso grupo tem graduando que deixa doutorando de chinelo ! Você disse tudo: como é que a gente vai lutar contra algo se este algo não existir ? E admitir o preconceito existente dentro de nós mesmos não significa que estejamos aceitando ou nos acomodando, e nem se colocando na situação de vítimas.
    Obrigada pela visita e pelas contribuições/reflexões !
    Bjss

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