Nada mais coerente que uma feminista falar do Dia Internacional da Mulher na terça-feira, pois para nós, lutar pela nossa igualdade e respeito e segurança, é todo dia!
Vou deixar registrado um breve e simples discurso que preparei para a abertura de um evento que aconteceu na Universidade… Como não sou boa com as palavras faladas, eu precisei rascunhar o que iria dizer… e para não se perder esse discurso, registro-o aqui.
"Em 1977 a ONU designou o dia 08 de março como Dia Internacional da Mulher para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. No entanto, ao longo do tempo, perdeu-se significativamente o sentido original desta data, adquirindo um caráter festivo e comercial. O objetivo deste evento é resgatar o sentido original desta data, refletindo a situação do grupo mais discriminado de toda a história da humanidade: a mulher.
Segundo Rita Lee, mulher é bicho esquisito por sangrar todo mês. Na verdade ela sangra todos os dias, mais precisamente a cada 90 minutos. Poderíamos terminar este evento com um minuto de silêncio para a próxima mulher que sangrará até a morte dentro de uma hora e meia. E o mais esquisito de tudo isso é que esse sangramento também é naturalizado. Assim como a menstruação, o sangue dessas mulheres mortas é visto como inerente a elas, consequência de seus atos, naturalizado. Olhando assim, o mito de origem do 8 de março, das mulheres queimadas na fábrica, não é tão fantasioso. Além dessa violência que deixa marcas visíveis no corpo, com as quais se comprova a agressão nas delegacias, existe a violência simbólica, e desta, nem as que obedecem fielmente os dogmas machistas escapam.
Mas estamos aqui, exatamente neste auditório, para refutar uma antiga tese: nós não somos frágeis. E, diferente das pseudo homenagens que circulam neste mês, nossa força não está em estar com as unhas impecáveis após um dia de trabalho duro, nem a andar equilibrada em salto alto, nem a suportar cólicas e mudanças de humor por conta da TPM. Somos fortes porque sobrevivemos, porque apesar de termos sido a vida inteira educadas para a submissão e para o medo, temos tido a coragem de questionar essa submissão sabendo que isso pode nos custar a vida.
Gostaria de terminar minha fala agradecendo a todas as feministas da história que lutaram para que hoje eu pudesse, entre tantas coisas, estar aqui na Universidade. Mesmo que eu não defendesse a causa feminista, o mínimo que eu poderia fazer hoje, estando dentro de uma academia, era reconhecer isso.
Obrigada a todas as mulheres que lutaram antes de nós e espero que nós que estamos aqui continuemos essa luta"